Salve capoeiras!
Aqui vai uma resportagem sobre a capoeira feita por Helvídio Mattos, produzido por Regiane Wohnrath e apresentada por Adriana Saldanha e exibido pelo canal ESPN Brasil.
Esta reportagem reúne aparições e declarações de grandes capoeiristas como Mestre Pastinha, Mestre João Pequeno, Mestre Decânio, Mestre Nenel, Mestre Itapoan, Mestre Cobrinha Mansa, Mestre Camisa, Mestre Arthur Emídio, Mestre Nestor Capoeira, Mestre Damião, Mestre Brasília, Mestre Suassuna, Mestre Peixinho, Mestre Toni Vargas, Contra-mestre Faísca, dos historiadores Muniz Sodré, Jaime Sodré e Carlos Eugênio Libano Soares e do violonista Baden Powell.
Um fato curioso que aparece nesse documentário é Mestre Genaro como compositor de uma das músicas mais conhecidas e cantadas nas rodas, Paranaê.
PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
PARTE 4
PARTE 5
PARET 6
PARTE FINAL
Axé!
terça-feira, 20 de julho de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
MÁRTIR DA CAPOEIRA - FINAL
Duelo de titãs
Atacaram-se, mas não em sentido pessoal. Bimba e Pastinha jamais se hostilizaram individualmente. Nunca gingaram juntos, nem mesmo se visitaram em toda a existência. Existem registros raros de encontros casuais entre os dois, como no 1º Festival de Capoeira da Bahia, no Ginásio Antônio Balbino, em 1966. Debateram algumas vezes por meio da imprensa, em matérias conduzidas pelo tom do rivalismo. Reportagem da Tribuna da Bahia, publicada no dia 13 de novembro de 1969, fez surgir algumas rusgas. No segundo caderno, a Tribuna intitulou: “Bimba e Pastinha, um duelo de titãs”. Ali argumentaram sobre os estilos de cada um, e fizeram questão de estabelecer diferenças.
“Capoeira angola é uma dança. Se oficializarem a capoeira será a regional, que se presta para a luta”, defendia Bimba. A resposta vinha em forma de ironia. “Bimba ensina os seus alunos a jogar mais ligeiro, enquanto eu determino aos meus movimentos lentos e manhosos. Capoeira veio de Angola. Regional é um mito. É apenas um nome criado por mestre Bimba, angoleiro como eu”. Com frase escrita na parede da academia, Pastinha também provocava. “Capoeira, só angola. Angola, capoeira-mãe”. “Para Bimba, a capoeira é invenção nacional, brasileira, originária das senzalas do recôncavo. Pastinha finca nas tradições da diáspora africana, dos negros trazidos para a escravidão”, elucida Antônio Liberac.
Fato é que disputaram os espaços culturais e políticos da época. Ambos tornaram a capoeira reconhecida entre as diversas classes sociais, e pleiteavam cada vez mais admiradores. Simpósios e congressos, como o que aconteceu em 1969, no Rio de Janeiro, tentaram unificar os estilos. Em vão. “Mestre Bimba retirou-se antes do término, pelo baixo nível da discussão. Pastinha, por sua vez, se negou a marcar presença”, narra matéria do jornal A Tarde daquele ano. As dissensões entre os dois não passavam disso. “Eram incitados o tempo todo, mas não tinham por que brigar”, concorda Manoel Nascimento Machado, o mestre Nenel, filho de Bimba.
Fala-se, inclusive, numa carta de Pastinha, enviada a Bimba, convidando-o para visitar a academia. O mestre nunca se fez presente, mas teria enviado alguns regionais. “Eles iam vadiar com a gente, sim. Ezequiel, Itapuã, Camisa Roxa, eram todos da capoeira regional”, recorda mestre João Grande, seguidor de Pastinha. Apesar das ponderações, as “alfinetadas” permanecem até hoje, principalmente nas palavras do angoleiro Gildo Lemos Couto, o Gildo Alfinete. “Bimba usou a capoeira para transformá-la numa outra coisa. Como alguém vai roubar sua mulher e você vai gostar?”, polemiza.
Ao esgueirar-se pelos dois ambientes, Ângelo Decânio Filho parece encontrar o cerne da questão. “A discussão se mantém porque Bimba é a face belicosa e guerreira. Pastinha é o exercício da habilidade, onde se mostra ao adversário que pode atingi-lo, mas não o faz”. De fato, Bimba voa sobre o oponente, tira o corpo do chão em ataque certeiro. Pastinha atua, finge-se bêbado, faz da roda teatro, representa personagem em jogo lento, não menos fulminante. Traz à memória aquelas imagens em que aparece no filme de 1949, com ginga inconfundível, num nostálgico preto-e-branco.
Atacaram-se, mas não em sentido pessoal. Bimba e Pastinha jamais se hostilizaram individualmente. Nunca gingaram juntos, nem mesmo se visitaram em toda a existência. Existem registros raros de encontros casuais entre os dois, como no 1º Festival de Capoeira da Bahia, no Ginásio Antônio Balbino, em 1966. Debateram algumas vezes por meio da imprensa, em matérias conduzidas pelo tom do rivalismo. Reportagem da Tribuna da Bahia, publicada no dia 13 de novembro de 1969, fez surgir algumas rusgas. No segundo caderno, a Tribuna intitulou: “Bimba e Pastinha, um duelo de titãs”. Ali argumentaram sobre os estilos de cada um, e fizeram questão de estabelecer diferenças. “Capoeira angola é uma dança. Se oficializarem a capoeira será a regional, que se presta para a luta”, defendia Bimba. A resposta vinha em forma de ironia. “Bimba ensina os seus alunos a jogar mais ligeiro, enquanto eu determino aos meus movimentos lentos e manhosos. Capoeira veio de Angola. Regional é um mito. É apenas um nome criado por mestre Bimba, angoleiro como eu”. Com frase escrita na parede da academia, Pastinha também provocava. “Capoeira, só angola. Angola, capoeira-mãe”. “Para Bimba, a capoeira é invenção nacional, brasileira, originária das senzalas do recôncavo. Pastinha finca nas tradições da diáspora africana, dos negros trazidos para a escravidão”, elucida Antônio Liberac.
Fato é que disputaram os espaços culturais e políticos da época. Ambos tornaram a capoeira reconhecida entre as diversas classes sociais, e pleiteavam cada vez mais admiradores. Simpósios e congressos, como o que aconteceu em 1969, no Rio de Janeiro, tentaram unificar os estilos. Em vão. “Mestre Bimba retirou-se antes do término, pelo baixo nível da discussão. Pastinha, por sua vez, se negou a marcar presença”, narra matéria do jornal A Tarde daquele ano. As dissensões entre os dois não passavam disso. “Eram incitados o tempo todo, mas não tinham por que brigar”, concorda Manoel Nascimento Machado, o mestre Nenel, filho de Bimba.
Fala-se, inclusive, numa carta de Pastinha, enviada a Bimba, convidando-o para visitar a academia. O mestre nunca se fez presente, mas teria enviado alguns regionais. “Eles iam vadiar com a gente, sim. Ezequiel, Itapuã, Camisa Roxa, eram todos da capoeira regional”, recorda mestre João Grande, seguidor de Pastinha. Apesar das ponderações, as “alfinetadas” permanecem até hoje, principalmente nas palavras do angoleiro Gildo Lemos Couto, o Gildo Alfinete. “Bimba usou a capoeira para transformá-la numa outra coisa. Como alguém vai roubar sua mulher e você vai gostar?”, polemiza.
Ao esgueirar-se pelos dois ambientes, Ângelo Decânio Filho parece encontrar o cerne da questão. “A discussão se mantém porque Bimba é a face belicosa e guerreira. Pastinha é o exercício da habilidade, onde se mostra ao adversário que pode atingi-lo, mas não o faz”. De fato, Bimba voa sobre o oponente, tira o corpo do chão em ataque certeiro. Pastinha atua, finge-se bêbado, faz da roda teatro, representa personagem em jogo lento, não menos fulminante. Traz à memória aquelas imagens em que aparece no filme de 1949, com ginga inconfundível, num nostálgico preto-e-branco.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
MÁRTIR DA CAPOEIRA - XIII
Hierarquias complexas
Pastinha cria regras para o jogo e proíbe golpes traiçoeiros, como o dedo nos olhos, a cabeçada solta e a meia-lua baixa. Elabora hierarquias complexas para que a capoeira seja praticada de forma desportiva. “Deu ao centro mestre de campo, mestre de canto, mestre de bateria, mestre de treinos, contramestre, arquivista...”, enumera Ângelo Decânio Filho, estudioso dos seus manuscritos. “O próprio uniforme preto e amarelo, inspirado nas cores do Ypiranga, representou mudança voltada para os princípios acadêmicos. Mestre Pastinha não consentia que se jogasse descalço e sem camisa em sua academia”, confirma trecho do livro de Liberac. Em 1952, redige-se o primeiro estatuto do Ceca.
A contribuição de Pastinha na escritura do regulamento vem por meio de palavras fortes, resumo da ética que propunha para seus discípulos. “Meus irmãos, ao iniciarmos os nossos trabalhos quero fazer sentir a todos os presentes e a quantos venham se integrar a nosso meio que a base fundamental do nosso centro é a boa conduta, educação social, solidariedade humana e sobretudo a prática do bem, não usando a arma poderosa que é a capoeira a não ser em legítima defesa”. Era a única instituição de angola organizada, onde os alunos recebiam diploma e carteira de identificação. À época, a campanha de Pastinha surgiu com tanta força que chegou a criar rivalidade com outras manifestações culturais de mesmo porte, a exemplo da capoeira regional, liderada por Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba.
Pastinha cria regras para o jogo e proíbe golpes traiçoeiros, como o dedo nos olhos, a cabeçada solta e a meia-lua baixa. Elabora hierarquias complexas para que a capoeira seja praticada de forma desportiva. “Deu ao centro mestre de campo, mestre de canto, mestre de bateria, mestre de treinos, contramestre, arquivista...”, enumera Ângelo Decânio Filho, estudioso dos seus manuscritos. “O próprio uniforme preto e amarelo, inspirado nas cores do Ypiranga, representou mudança voltada para os princípios acadêmicos. Mestre Pastinha não consentia que se jogasse descalço e sem camisa em sua academia”, confirma trecho do livro de Liberac. Em 1952, redige-se o primeiro estatuto do Ceca. A contribuição de Pastinha na escritura do regulamento vem por meio de palavras fortes, resumo da ética que propunha para seus discípulos. “Meus irmãos, ao iniciarmos os nossos trabalhos quero fazer sentir a todos os presentes e a quantos venham se integrar a nosso meio que a base fundamental do nosso centro é a boa conduta, educação social, solidariedade humana e sobretudo a prática do bem, não usando a arma poderosa que é a capoeira a não ser em legítima defesa”. Era a única instituição de angola organizada, onde os alunos recebiam diploma e carteira de identificação. À época, a campanha de Pastinha surgiu com tanta força que chegou a criar rivalidade com outras manifestações culturais de mesmo porte, a exemplo da capoeira regional, liderada por Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba.
MÁRTIR DA CAPOEIRA - XII
Faceta marginal
O resgate do passado significou a quebra dos laços com a rua. Pastinha consegue tirar a capoeira da desorganização e termina por romper culturalmente com sua faceta marginal, vinculada ao crime. “Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da capoeira. Mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica?”, questiona. Eram tempos de arruaça e diversão. “Nas primeiras décadas do século passado, a capoeira estava entre a ordem e a desordem, a violência e a festa”, analisa Adriana Albert Dias, autora de Mandinga, manha e malícia, livro que reconstitui o cotidiano dos capoeiristas entre 1910 e 1925.
Quando jovem, tais contradições são vivenciadas de perto pelo próprio Pastinha. Por “vadiagem”, o nome do mestre foi parar algumas vezes nas fichas policiais. Não andava desprevenido. Usava faca de dois cortes na cintura e pequena foice no cabo do berimbau para se proteger das ações da polícia, geralmente iniciadas por pura provocação. “Se estava numa vadiação, num grupo com o berimbau na mão, eles passavam e entendiam de tomar. Aí inflamava, né? Tive algumas vezes a polícia encima de mim. Bati alguma vez em polícia desabusado, mas em defesa de minha moral e do meu corpo”.
A saída seria realizar as rodas em locais fechados, longe dos olhos das autoridades. Pastinha tinha planos audaciosos para fazer da capoeira prática reconhecida e valorizada. Chegou a criar algumas academias de treinamento, ainda sem estrutura. Somente com o convite da Gengibirra pôde realizar seu maior sonho, a fundação do Centro Esportivo de Capoeira Angola (Ceca), em Brotas, mais tarde transferido para o Pelourinho. “Dentro da academia seu ensino foi fundamentado na valorização da cultura afro-brasileira e em princípios éticos bem diferentes do que se aprendia nos tempos dos valentões”, compara o capoeirista e doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Pedro Abib.
O resgate do passado significou a quebra dos laços com a rua. Pastinha consegue tirar a capoeira da desorganização e termina por romper culturalmente com sua faceta marginal, vinculada ao crime. “Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da capoeira. Mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica?”, questiona. Eram tempos de arruaça e diversão. “Nas primeiras décadas do século passado, a capoeira estava entre a ordem e a desordem, a violência e a festa”, analisa Adriana Albert Dias, autora de Mandinga, manha e malícia, livro que reconstitui o cotidiano dos capoeiristas entre 1910 e 1925. Quando jovem, tais contradições são vivenciadas de perto pelo próprio Pastinha. Por “vadiagem”, o nome do mestre foi parar algumas vezes nas fichas policiais. Não andava desprevenido. Usava faca de dois cortes na cintura e pequena foice no cabo do berimbau para se proteger das ações da polícia, geralmente iniciadas por pura provocação. “Se estava numa vadiação, num grupo com o berimbau na mão, eles passavam e entendiam de tomar. Aí inflamava, né? Tive algumas vezes a polícia encima de mim. Bati alguma vez em polícia desabusado, mas em defesa de minha moral e do meu corpo”.
A saída seria realizar as rodas em locais fechados, longe dos olhos das autoridades. Pastinha tinha planos audaciosos para fazer da capoeira prática reconhecida e valorizada. Chegou a criar algumas academias de treinamento, ainda sem estrutura. Somente com o convite da Gengibirra pôde realizar seu maior sonho, a fundação do Centro Esportivo de Capoeira Angola (Ceca), em Brotas, mais tarde transferido para o Pelourinho. “Dentro da academia seu ensino foi fundamentado na valorização da cultura afro-brasileira e em princípios éticos bem diferentes do que se aprendia nos tempos dos valentões”, compara o capoeirista e doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Pedro Abib.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
MÁRTIR DA CAPOEIRA - XI
Tradição reinventada
Mudanças implementadas por Pastinha condenam a violência e valorizam a ludicidade da tradição afro.
Em preto-e-branco as imagens são ainda mais nostálgicas, revelam passos saudosos de um “bêbado” alucinante, evidenciam a ginga inconfundível de um bailarino, mais que lutador. Na ponta dos pés, Pastinha joga a capoeira que se perdeu no tempo, não existe mais. Os alunos estão reunidos na roda, têm o mesmo figurino, são atores de verdadeira peça teatral, tão artística quanto perigosa. O mestre, porém, tem cuidado, dá balão, projeta o corpo do adversário para o alto, escora para que aterrise no chão com segurança.
As gravações em película são de 1949. O filme de Alceu Maynard não tem mais do que 15 minutos, mas é uma das raríssimas gravações em que Pastinha aparece em ação. Ali a brutalidade já havia sido banida das rodas do mestre. O estilo Pastinha é lento, cadenciado, sem que necessariamente seja preciso atingir o adversário. “Tem que fazer que vai e não vai quando menos se espera”, sugeria. Pensou a capoeira para que fosse aceita por todos, sem exceção. “É pra homem, menino e mulher. Só não joga quem não quer”. Na roda em que Pastinha era o mestre, quase tudo não passava de representação, era brincadeira controladamente arriscada.
“Repare nos movimentos. O lúdico é que interessa. As alterações deram vazão a um teatro na roda”, observa o pesquisador Frede Abreu, ao examinar a relíquia em vídeo. Abreu se refere às transformações no modelo de praticar a capoeira tradicional, pelas quais Pastinha foi o maior responsável. “Diferente do que muita gente pensa, ele não criou a angola, criou um tipo específico dentro da capoeira, mais condizente com os preceitos tradicionais”, esclarece. De fato, Pastinha é educador da roda, torna elegante e civilizado os modos de jogar.
Para tanto foi preciso voltar no tempo, reinventar antiga tradição. Como guardião dos segredos de angola apresentava sua capoeira como original, pura, fruto da experiência africana e escrava no Brasil. Buscou traços primitivos nos rituais religiosos dos candomblés, nas danças dos ancestrais e até nos movimentos dos bichos. “Nessas práticas estariam a essência da capoeira. Com elas teria ganhado movimentos lúdicos e de defesa”, aposta o antropólogo Antônio Liberac. Ao adequar os ritos africanos às regras do jogo, criou modelo único e inovador.
Mudanças implementadas por Pastinha condenam a violência e valorizam a ludicidade da tradição afro.Em preto-e-branco as imagens são ainda mais nostálgicas, revelam passos saudosos de um “bêbado” alucinante, evidenciam a ginga inconfundível de um bailarino, mais que lutador. Na ponta dos pés, Pastinha joga a capoeira que se perdeu no tempo, não existe mais. Os alunos estão reunidos na roda, têm o mesmo figurino, são atores de verdadeira peça teatral, tão artística quanto perigosa. O mestre, porém, tem cuidado, dá balão, projeta o corpo do adversário para o alto, escora para que aterrise no chão com segurança.
As gravações em película são de 1949. O filme de Alceu Maynard não tem mais do que 15 minutos, mas é uma das raríssimas gravações em que Pastinha aparece em ação. Ali a brutalidade já havia sido banida das rodas do mestre. O estilo Pastinha é lento, cadenciado, sem que necessariamente seja preciso atingir o adversário. “Tem que fazer que vai e não vai quando menos se espera”, sugeria. Pensou a capoeira para que fosse aceita por todos, sem exceção. “É pra homem, menino e mulher. Só não joga quem não quer”. Na roda em que Pastinha era o mestre, quase tudo não passava de representação, era brincadeira controladamente arriscada.
“Repare nos movimentos. O lúdico é que interessa. As alterações deram vazão a um teatro na roda”, observa o pesquisador Frede Abreu, ao examinar a relíquia em vídeo. Abreu se refere às transformações no modelo de praticar a capoeira tradicional, pelas quais Pastinha foi o maior responsável. “Diferente do que muita gente pensa, ele não criou a angola, criou um tipo específico dentro da capoeira, mais condizente com os preceitos tradicionais”, esclarece. De fato, Pastinha é educador da roda, torna elegante e civilizado os modos de jogar.
Para tanto foi preciso voltar no tempo, reinventar antiga tradição. Como guardião dos segredos de angola apresentava sua capoeira como original, pura, fruto da experiência africana e escrava no Brasil. Buscou traços primitivos nos rituais religiosos dos candomblés, nas danças dos ancestrais e até nos movimentos dos bichos. “Nessas práticas estariam a essência da capoeira. Com elas teria ganhado movimentos lúdicos e de defesa”, aposta o antropólogo Antônio Liberac. Ao adequar os ritos africanos às regras do jogo, criou modelo único e inovador.
domingo, 30 de maio de 2010
MÁRTIR DA CAPOEIRA - X
Ajuda de custo
Mas Pastinha sabia que poderia contar com alguns dos seus. O escritor Jorge Amado interveio junto ao então governador Antonio Carlos Magalhães para que o mestre recebesse ajuda de custo de 300 cruzeiros e pensão vitalícia por “serviços prestados ao turismo”. “Mestre Pastinha merece ter uma situação excepcional na Bahia. Trata-se de um grande mestre da nossa cultura popular e deveria ser amparado pelos poderes públicos e pela população. É o guardião de preciosidade da nossa cultura, a capoeira angola”, alertou Jorge Amado.
Ainda que não devolvessem sua academia, Pastinha reivindicava reconhecimento. Queria que o governo Luiz Viana Filho o apoiasse no projeto de tornar sua capoeira um referencial para o turismo em Salvador. Não foi atendido. “Solicitei ao governador um auxílio para restaurar a academia. Até agora, porém, apenas promessas”. O socorro viria de outras partes. Artistas como Moraes Moreira chegaram a realizar shows beneficentes para arrecadar fundos. O próprio Bimba teria feito apresentação em prol de Pastinha. “João Pequeno e João Grande também foram solidários na medida do possível. A verdade é que a maioria dos seus alunos não tinha condições”, explica Frede Abreu.
Em 1979, com o esforço particular de mestre Curió, se deu a última tentativa de reerguer a academia. Quase não se destacou o fato nos jornais. “Mestre Pastinha tenta reviver, na miséria, seu passado de glórias”. Não conseguiria atrair muitos freqüentadores, insucesso justificado por dona Romélia. “A academia ainda não tem alunos porque todo mundo que aparece só quer ter aula de graça”, bradou. Por curto período, o Centro Esportivo de Capoeira Angola funcionaria na Rua Gregório de Matos, número 51.
As ajudas atenuaram o sofrimento, mas serviram apenas de paliativo. Dona Romélia ainda tentou, de forma frustrada, gravar disco e reeditar livro de Pastinha. Mas a única fonte de renda fixa continuaria sendo seu acarajé, comercializado na porta do Hotel Pelourinho e na entrada da Fonte Nova. Sem tempo para cuidar do companheiro e sem dinheiro para comprar remédios, decidiu internar Pastinha num asilo. O mestre seria levado para o Abrigo Dom Pedro II, carregado pelo amigo e aluno Ângelo Romano, atual comerciante do Pelourinho. “Levei no meu próprio carro”, revela.
Asilado, não ficaria em paz. A fama faria com que sua figura continuasse tão cultuada quanto explorada. “Vem gente aqui tirar fotos dele e vender por 700 cruzeiros”, denunciou Romélia. Terminaria, assim, definhando em cima de uma cama, sem dentes, com os olhos revirados e servindo de modelo. Em 13 de novembro de 1981, morre aos 92 anos. Há controvérsias sobre quem teria custeado o enterro no cemitério do Campo Santo. A viúva dizia que foi ela, com o dinheiro do acarajé. Alguns sugerem que foi a prefeitura. Certo é que o grande mestre sacerdote, que fez da roda de capoeira teatro, mostrou sua arte afro-brasileira para os africanos e filosofou com a cultura popular, terminou cego, pobre e famoso. Morreu como mártir, tateando no escuro.
Mas Pastinha sabia que poderia contar com alguns dos seus. O escritor Jorge Amado interveio junto ao então governador Antonio Carlos Magalhães para que o mestre recebesse ajuda de custo de 300 cruzeiros e pensão vitalícia por “serviços prestados ao turismo”. “Mestre Pastinha merece ter uma situação excepcional na Bahia. Trata-se de um grande mestre da nossa cultura popular e deveria ser amparado pelos poderes públicos e pela população. É o guardião de preciosidade da nossa cultura, a capoeira angola”, alertou Jorge Amado. Ainda que não devolvessem sua academia, Pastinha reivindicava reconhecimento. Queria que o governo Luiz Viana Filho o apoiasse no projeto de tornar sua capoeira um referencial para o turismo em Salvador. Não foi atendido. “Solicitei ao governador um auxílio para restaurar a academia. Até agora, porém, apenas promessas”. O socorro viria de outras partes. Artistas como Moraes Moreira chegaram a realizar shows beneficentes para arrecadar fundos. O próprio Bimba teria feito apresentação em prol de Pastinha. “João Pequeno e João Grande também foram solidários na medida do possível. A verdade é que a maioria dos seus alunos não tinha condições”, explica Frede Abreu.
Em 1979, com o esforço particular de mestre Curió, se deu a última tentativa de reerguer a academia. Quase não se destacou o fato nos jornais. “Mestre Pastinha tenta reviver, na miséria, seu passado de glórias”. Não conseguiria atrair muitos freqüentadores, insucesso justificado por dona Romélia. “A academia ainda não tem alunos porque todo mundo que aparece só quer ter aula de graça”, bradou. Por curto período, o Centro Esportivo de Capoeira Angola funcionaria na Rua Gregório de Matos, número 51.
As ajudas atenuaram o sofrimento, mas serviram apenas de paliativo. Dona Romélia ainda tentou, de forma frustrada, gravar disco e reeditar livro de Pastinha. Mas a única fonte de renda fixa continuaria sendo seu acarajé, comercializado na porta do Hotel Pelourinho e na entrada da Fonte Nova. Sem tempo para cuidar do companheiro e sem dinheiro para comprar remédios, decidiu internar Pastinha num asilo. O mestre seria levado para o Abrigo Dom Pedro II, carregado pelo amigo e aluno Ângelo Romano, atual comerciante do Pelourinho. “Levei no meu próprio carro”, revela.
Asilado, não ficaria em paz. A fama faria com que sua figura continuasse tão cultuada quanto explorada. “Vem gente aqui tirar fotos dele e vender por 700 cruzeiros”, denunciou Romélia. Terminaria, assim, definhando em cima de uma cama, sem dentes, com os olhos revirados e servindo de modelo. Em 13 de novembro de 1981, morre aos 92 anos. Há controvérsias sobre quem teria custeado o enterro no cemitério do Campo Santo. A viúva dizia que foi ela, com o dinheiro do acarajé. Alguns sugerem que foi a prefeitura. Certo é que o grande mestre sacerdote, que fez da roda de capoeira teatro, mostrou sua arte afro-brasileira para os africanos e filosofou com a cultura popular, terminou cego, pobre e famoso. Morreu como mártir, tateando no escuro.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
MÁRTIR DA CAPOEIRA - IX
Revolta e amargura
Matéria histórica do jornal A Tarde, em 5 de junho de 1980, trouxe título lacônico: “O desabafo do mestre”. Perguntado sobre as condições em que se encontrava a capoeira baiana à época, responderia em tom de revolta e amargura. “A capoeira de nada precisa. Quem precisa sou eu”. De fato, a prática havia ganho status e reconhecimento. Justamente os “velhos mestres”, que haviam lhe dado condições de crescer, não colheram seus frutos. “A capoeira baiana em alta no mercado, enquanto os mantenedores de sua tradição, como eu mesmo, morrendo em estado de severa pobreza”.
Como espécie de maldição, Pastinha teve o mesmo fim de Amorzinho, Aberrê, Waldemar, Cobrinha Verde e do regional mestre Bimba. Como eles, também seria ridicularizado por alguns dos próprios alunos. “Na viagem à África seu Pastinha já não enxergava bem. João grande disse que José Gato e os outros comiam o peixe do prato dele e deixavam só as espinhas”, delata mestre João Pequeno, em tom de lamentação. Pela imprensa, teve a sua condição de mestre questionada. Foi diminuído a tomador de conta de roda: “Pastinha é uma invenção da mídia”. “Pastinha, bom ou mau capoeirista?”. Mesmo doente, responde aos ataques: “Despeitados: Quem pode dizer que não sou mestre. Sou mestre com a permissão dos antigos”.
Provaria isso cego. “Sem enxergar, jogava no tato”, testemunha o mestre Boca Rica. Em visita a Salvador, o jornalista Roberto Freire se surpreenderia com aquele velhote, que em vez de bengala branca usava a intuição para continuar superando adversários. “Ele lutava cego. Os alunos mantinham distância e pensei que fosse respeito. Até que um deles me disse: ‘Se a gente chegar mais perto, leva’”, narra Freire. Participaria de rodas de capoeira até quando suportasse. Impossibilitado de andar, recolher-se-ia aos precários aposentos, pondo-se apenas a pensar como um rabino.
Sábio, até o final dos seus dias, Pastinha filosofou sobre a particular decadência. Desenvolveu reflexão sobre o próprio infortúnio. Em matéria do jornal A Tarde, com subtítulo “Tateando no Escuro”, o mestre tenta explicar a tragédia em que havia se enterrado. “Engraçada a vida. A fama chegou para mim (...) No princípio sentia uma vaidade e pensava: formidável, todos falam de mim, um mulatinho filho de escravo. Terrível é descobrir que tudo isso é falso. A única coisa real foi a capoeira”.
Matéria histórica do jornal A Tarde, em 5 de junho de 1980, trouxe título lacônico: “O desabafo do mestre”. Perguntado sobre as condições em que se encontrava a capoeira baiana à época, responderia em tom de revolta e amargura. “A capoeira de nada precisa. Quem precisa sou eu”. De fato, a prática havia ganho status e reconhecimento. Justamente os “velhos mestres”, que haviam lhe dado condições de crescer, não colheram seus frutos. “A capoeira baiana em alta no mercado, enquanto os mantenedores de sua tradição, como eu mesmo, morrendo em estado de severa pobreza”. Como espécie de maldição, Pastinha teve o mesmo fim de Amorzinho, Aberrê, Waldemar, Cobrinha Verde e do regional mestre Bimba. Como eles, também seria ridicularizado por alguns dos próprios alunos. “Na viagem à África seu Pastinha já não enxergava bem. João grande disse que José Gato e os outros comiam o peixe do prato dele e deixavam só as espinhas”, delata mestre João Pequeno, em tom de lamentação. Pela imprensa, teve a sua condição de mestre questionada. Foi diminuído a tomador de conta de roda: “Pastinha é uma invenção da mídia”. “Pastinha, bom ou mau capoeirista?”. Mesmo doente, responde aos ataques: “Despeitados: Quem pode dizer que não sou mestre. Sou mestre com a permissão dos antigos”.
Provaria isso cego. “Sem enxergar, jogava no tato”, testemunha o mestre Boca Rica. Em visita a Salvador, o jornalista Roberto Freire se surpreenderia com aquele velhote, que em vez de bengala branca usava a intuição para continuar superando adversários. “Ele lutava cego. Os alunos mantinham distância e pensei que fosse respeito. Até que um deles me disse: ‘Se a gente chegar mais perto, leva’”, narra Freire. Participaria de rodas de capoeira até quando suportasse. Impossibilitado de andar, recolher-se-ia aos precários aposentos, pondo-se apenas a pensar como um rabino.
Sábio, até o final dos seus dias, Pastinha filosofou sobre a particular decadência. Desenvolveu reflexão sobre o próprio infortúnio. Em matéria do jornal A Tarde, com subtítulo “Tateando no Escuro”, o mestre tenta explicar a tragédia em que havia se enterrado. “Engraçada a vida. A fama chegou para mim (...) No princípio sentia uma vaidade e pensava: formidável, todos falam de mim, um mulatinho filho de escravo. Terrível é descobrir que tudo isso é falso. A única coisa real foi a capoeira”.
domingo, 16 de maio de 2010
MÁRTIR DA CAPOEIRA - VIII
Tateando no escuro
Pastinha ficou cego e teve o mesmo final trágico da maioria dos ‘velhos mestres’
Esquivou-se com peculiar malícia, como que tentando livrar-se de golpe mortal. Foi em vão. Em toda a sua trajetória seria o único ataque a que não teria defesa. Acertou-o em cheio.
- Pastinha, que é que tá sentindo?A resposta ao questionamento de dona Romélia, a terceira esposa, guardaria certo desdém, misto de resignação e sarcasmo.
- Nada, absolutamente nada... Tô bem, graças a Deus...
Definitivamente não estava. Vivia em quarto escuro, sujo, sombrio. Enxergava apenas o negrume. Duro golpe de deslealdade havia lhe deixado cego. É verdade que dois derrames cerebrais subtraíram sua visão, talvez resultado das baforadas de cigarro, companheiro inseparável. Mas nada perturbaria tanto seus sentidos que a traiçoeira infidelidade, tão devastadora quanto o “furo nos olhos”. Sem maiores explicações, em 1973, tiraram-lhe seu maior bem, o Centro Esportivo de Capoeira Angola.
Seria “despejo” temporário, uma simples reforma nas dependências do velho casarão. Como a própria cegueira, porém, foi definitiva. A academia se transformaria em restaurante, o Senac, no Largo do Pelourinho. O espaço não alimentaria culturalmente baianos e turistas, como fazia o centro de Pastinha. O mestre havia perdido sua maior fonte de renda. Segundo jornais da época, sequer recebeu indenização e alguns dos pertences que deixou no local teriam sido extraviados. “Quadros pintados por ele, livros, registros da academia, cartas, bandeiras, móveis em jacarandá, desapareceram apesar de ter ficado sob a guarda dos responsáveis pela desapropriação”, escreveu A República.
“A saída do Pelourinho foi trágica. Nos enganaram. Disseram que seria por uns dias”, testemunha Jaime Martins dos Santos, o mestre Curió, em depoimento no documentário Pastinha: uma vida pela capoeira, de Antônio Muricy. A transferência para cortiço pequeno e sem estrutura, na Ladeira do Ferrão, também conhecida como Ladeira do Mijo, era o princípio do declínio. Pastinha não havia acumulado capital para superar a crise. Já empobrecido, ficou em estado de penúria. Durante certo tempo ocultaria a mágoa. Depois, quebraria o silêncio. “Nada vejo. Nada, absolutamente nada. Trevas, trevas. Estou na miséria”, revelou.
Pastinha ficou cego e teve o mesmo final trágico da maioria dos ‘velhos mestres’Esquivou-se com peculiar malícia, como que tentando livrar-se de golpe mortal. Foi em vão. Em toda a sua trajetória seria o único ataque a que não teria defesa. Acertou-o em cheio.
- Pastinha, que é que tá sentindo?A resposta ao questionamento de dona Romélia, a terceira esposa, guardaria certo desdém, misto de resignação e sarcasmo.
- Nada, absolutamente nada... Tô bem, graças a Deus...
Definitivamente não estava. Vivia em quarto escuro, sujo, sombrio. Enxergava apenas o negrume. Duro golpe de deslealdade havia lhe deixado cego. É verdade que dois derrames cerebrais subtraíram sua visão, talvez resultado das baforadas de cigarro, companheiro inseparável. Mas nada perturbaria tanto seus sentidos que a traiçoeira infidelidade, tão devastadora quanto o “furo nos olhos”. Sem maiores explicações, em 1973, tiraram-lhe seu maior bem, o Centro Esportivo de Capoeira Angola.
Seria “despejo” temporário, uma simples reforma nas dependências do velho casarão. Como a própria cegueira, porém, foi definitiva. A academia se transformaria em restaurante, o Senac, no Largo do Pelourinho. O espaço não alimentaria culturalmente baianos e turistas, como fazia o centro de Pastinha. O mestre havia perdido sua maior fonte de renda. Segundo jornais da época, sequer recebeu indenização e alguns dos pertences que deixou no local teriam sido extraviados. “Quadros pintados por ele, livros, registros da academia, cartas, bandeiras, móveis em jacarandá, desapareceram apesar de ter ficado sob a guarda dos responsáveis pela desapropriação”, escreveu A República.
“A saída do Pelourinho foi trágica. Nos enganaram. Disseram que seria por uns dias”, testemunha Jaime Martins dos Santos, o mestre Curió, em depoimento no documentário Pastinha: uma vida pela capoeira, de Antônio Muricy. A transferência para cortiço pequeno e sem estrutura, na Ladeira do Ferrão, também conhecida como Ladeira do Mijo, era o princípio do declínio. Pastinha não havia acumulado capital para superar a crise. Já empobrecido, ficou em estado de penúria. Durante certo tempo ocultaria a mágoa. Depois, quebraria o silêncio. “Nada vejo. Nada, absolutamente nada. Trevas, trevas. Estou na miséria”, revelou.
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